segunda-feira, abril 14, 2008

Corpos Nômades

Ontem fui assistir “Corpos Nômades”, uma peça de dança contemporânea inspirada na obra de Manoel de Barros. As performances dos dançarinos se igualavam aos movimentos de caramujos, lesmas, tatus, bichos em baixo das pedras, misturados ao jardim, sujos de terra, contorcendo-se em seus casulos, em suas cascas velhas.

Confesso que não foi muito agradável aos olhos nem à alma. Deu uma certa indigestão. Fiquei com uma quase asma. Claustrofóbico e angustiante. Talvez fosse justamente esta a proposta dos caras: atormentar. Missão cumprida, que bom! E de tão incomadada que eu fiquei, cá estou deixando um rastro de palavras. As tais palavras, que Manoel tanto gosta e tanto significa.

Falando em Manoel, o de Barros, ele é uma figura mesmo admirável. Além da sua obra poética encantadora, chamou-me atenção o fato de ser casado com a Stella há 58 anos. Amor assim, só conheço o do também escritor Ariano Suassuna com sua amada Zélia. Esta lealdade amorosa é quase inalcançável. Não é um amor nômade, por mais que a pessoa seja uma inquilina do mundo.

Inquilinos do Mundo é o nome do novo show do grupo Mawaca, o qual eu fui assistir há duas semanas no Auditório Ibirapuera. Maravilha de show! Uma energia contagiante e inspiradora. Vestidas de ciganas e acompanhadas por ótimos músicos, as integrantes do grupo desfilavam vida, poesia e mágica.

E fico aqui unindo os botões, linkando tudo com tudo... quanta discussão de lugar transitório, de mudanças e transformações! Hoje, mais que qualquer outro tempo, as mudanças são super valorizadas. A fila anda, a catraca gira, o tempo urge. Os amores pra sempre não ficam mais! São expulsos, substituídos, deletados. As referências são esquecidas e as pessoas vão se fazendo com pedacinhos de hoje. O saudosismo é chato, caiu em desuso. A velocidade é alta, a absorção é rápida e nada profunda. Engole logo se não engasga. Não há tempo. Perdeu, perdeu. Próximo!
Mas eu continuo admirando a lealdade, um sentimento que engorda com o tempo e se faz tão linda na amizade, no amor e até entre inimigos. E é preciso ter tempo e deixá-lo passar para ela acontecer. É preciso persistência, crença e decência. E quando a lealdade é concebida em relações, o mundo fica pequenininho, e por mais que caminhemos, nossas âncoras estão feitas raízes fortes por aí, nesses eternos e belos tratados, trançados e fincados laços de ternura.

4 Comments:

Anonymous Cleverton Aires said...

Massa seu blog!
:)

7:36 PM  
Blogger Mônica said...

Que bão! Comentários assim são sempre motivadores para escrever mais e mais. Valeu!!!

8:09 PM  
Blogger Madalena said...

Amiga,
valeu a pena esperar para ler um texto tão lindo como esse. Num dia como hoje, era tudo que eu precisava. Especialmente esse seu último parágrafo... um verdadeiro carinho na alma.
Te adoro e nunca me "desancoro" das coisas boas que trazemos, todas nós juntas. Amo vocês!
Beijos, saudades,
da Ju

3:14 PM  
Anonymous Anônimo said...

Delícia saborear seus textos...adoro passar e ficar por aqui (lentamente, sem pressa!)faz um bem tão grande para a alma...
beijos querida
Tams

10:23 AM  

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