segunda-feira, dezembro 25, 2006

Agradecimentos e crônica embrulhada pra presente

Bem... primeiramente, quero agradecer a presença carinhosa dos meus leitores queridos: Carol, Jú, Fê, Mari, Paulinha, Natália e Rô!!! Também a aqueles que também me lêem, mas eu não sei.

Segue uma crônica do escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, publicada na última sexta-feira no Estadão. Notem que há uma personagem com meu nome. Pois é... foi um presente de natal do meu amigo Ignácio.

Milhões de beijos!




Conto de Natal à minha maneira


Liliani viu quando ele entrou, foi até os fundos, fingiu olhar os livros, virou-se para ela, desviou o olhar, apanhou uma revista e folheou, a contemplá-la com o rabo dos olhos. Disfarça mal, ela pensou. Era a quarta vez na semana que ele surgia na hora do almoço, momento silencioso na biblioteca, os alunos saíam das classes e no restaurante encontravam pais, amigos, professores ou iam jogar alguma coisa, namorar. Ela se aproximou sorrateiramente, gostava dessa palavra sorrateira.

- Então?

Ele se assustou, como se tivesse sido pego em uma transgressão. Devia ter 18 anos, conservava o desajeitamento da adolescência.

- Quer ajuda?

- Nem sei o que quero.

- Quer um livro, imagino. Por isso está na biblioteca. Ou não?

Quando tinha fome, como agora, tornava-se irônica.

- Quero uns livros para ler nos feriados de Natal.

- Feriados? No Natal estaremos todos em férias.

- Posso levar alguns livros para ler durante as férias?

- Gosta de ler?

- Gosto. E você, gosta de quem lê?

- Sou bibliotecária, livros são minha paixão. Um dia ainda abro uma livraria.

- Você admira quem lê?

Liliani não entendeu bem o porquê da pergunta. Deixou passar batido. Seria aluno do colégio? Por que vinha com tanta freqüência, fingia que olhava os livros e ia embora?

- O que gostaria que eu lesse?

- Ler é uma decisão pessoal.

- É...

Ele parecia sem assunto e, ao mesmo tempo, dava a sensação de que estava ansioso para falar, a boca tremia, os lábios secos. Nesse momento um garotão colocou a cabeça na porta, gritou:

- Pronta, Liliani? Vamos almoçar?

- Num minuto, Bruno! Estou atendendo uma pessoa! Vai na frente!

Ela podia jurar que uma expressão de desapontamento ensombreou o rosto do garoto, suas mãos tremeram, ele umedeceu os lábios com a língua.

- Teu namorado?

Em um segundo, Liliani compreendeu, as mulheres são intuitivas, rápidas. Comoveu-se. Riu, mesmo considerando que a pergunta invadia seu espaço. Quando ela ria, seu corpo inteiro acompanhava, como se fosse uma explosão, seus olhos ficavam generosos.

- Não tenho namorado!

- É casada?

- Não, sou solteira!

A resposta estilhaçou toda a tensão que sufocava o corpo dele, o jovem respirou, o ar veio de dentro com força, como se mil mãos tivessem feito uma massagem com pedras quentes.

- Não quer voltar depois do almoço? Preciso comer e reabrir a biblioteca à tarde. Ou, melhor, quer almoçar comigo?

Surpreendido, ele emudeceu de alegria e de temor. Liliani estava achando divertido, queria estender a situação, ver aonde chegava. Percebia que ele estava travado, é sempre assim quando se quer alguém. As mulheres conhecem os mecanismos do coração, os meandros misteriosos da alma, dizia o professor de lógica. Outro amigo, por quem ela tinha sido apaixonada, costumava definir: 'Teus olhos têm uma dose enorme de loucura, deixam as pessoas inquietas, são uma aventura.' O último namorado vivia dizendo: 'Quando você ri, o mundo vira de ponta cabeça.' E ela, com a ironia que a marcava, e às vezes prejudicava, porque os homens são crianças que não sabem brincar com a vida, se leva muito a sério: 'O mundo vira de ponta cabeça? Conte a verdade? Quem vira de ponta cabeça é você.' Lembrou-se também do namorado que perdera porque tinha deixado de usar sandálias de salto agulha, ele a queria o dia inteiro com aquele salto que quase quebrava a espinha, ainda que torneassem sensualmente suas pernas. Liliani se sabia bonita, insinuante, conhecia o fascínio que despertava a cor de sua pele, de um moreno que dava a sensação de ela estar saindo da praia.

- Não posso almoçar, agora. Não posso, me desculpe, disse ele.

- Almoçamos outro dia.

- Como você se chama? Liliana?

- Liliani. O i no lugar do a. Meu pai quis assim, para ficar um nome único, diferente.

- Liliani é bonito, tem um ritmo. Meu professor de português diz que cada pessoa faz o seu próprio nome. O que significa Liliani?

- O mesmo que Liliana. Ou Liliam. Meu pai disse que significa lírio, e lírio é pureza, inocência... O lírio está em algumas das pinturas mais famosas da Antiguidade. Nas Anunciações de Leonardo da Vinci, de Rafael e de Guido Reni. Anjos trazem lírios a Maria, mãe de Deus.

Ele se espantou, admirou-a mais. Gostou. Como ela sabe coisas, pensou. Não percebeu que ela mudava o tom do sério ao gaiato, ainda que fosse verdade.

- Lindo... lírio... inocência...

- Mas não sou tão inocente assim, olhe lá!... Mas, decidiu o livro? Hoje é o último dia antes das férias, antes do Natal. Acho que você pode levar dois ou três, faço um cadastro, vou confiar em você. Estou boazinha esta semana.

- Me diz uma coisa. Quem leu mais livros aqui?

- Quem leu mais?

- O campeão, o recordista.

Tudo hoje são recordes, números, ela pensou.

- Tem uma menina, a Mônica, que lê um livro por dia. Uma vez desconfiamos, fizemos testes, ela lê de verdade. Cabeça incrível.

- Você admira essa mulher?

- Claro. Uma pessoa assim tem outra cabeça.

- Admira muito?

- Vou dizer que sim. É alguém que tem onde se refugiar para fugir da mesmice, desta vida chata, rotineira, às vezes...

- Puxa! Admira essa pessoa.

- Tem gente que desde cedo mostra que ser vai diferenciada.

- Se eu lesse muitos livros? Você me admiraria?

- Claro que sim.

- Quantos livros eu teria de ler?

- Nunca pensei nisso.

- Pois vou ler esta biblioteca inteira. Depois vou passar por todas as outras bibliotecas de São Paulo, do Brasil. Onde tiver livro, estarei lendo...

Ele se encaminhou para a porta, voltou-se.

- Por você vou ler 1 milhão de livros. Um bilhão. E aí você vai me admirar.

Quase disse 'gostar de mim', se conteve, apenas pensou que ela veria quanto uma paixão move um homem.

- Vou ler 1 trilhão de livros, vou ler todos os livros do mundo.

Liliani fez um aceno de cabeça e pensou: tomando-se a média de 120 páginas por livro e imaginando que ele demore três minutos para ler uma página, lerá um livro a cada 360 minutos, ou seja seis horas. Seis trilhões de horas, calculando por baixo, significam 250 bilhões de dias. Mais ou menos uns 70 bilhões de anos. Acho que não vou esperar, concluiu. Estou com fome. E saiu para o almoço.

4 Comments:

Blogger menina said...

Paixão, esse exagero! Ao menos temos trilhões de livros que nos emprestam sonhos.
Um beijo de sua leitora fidelíssima,

3:13 PM  
Anonymous Anônimo said...

Eu faço uma lista dos livros que li. Lembrei e comecei a refletir sobre isso, depois do seu post. :S
Agradeço por sempre fazer desse cantinho, um lugar bacana!

Beijos e feliz 2007!

8:24 PM  
Anonymous Anônimo said...

Obrigada dizemos nós, leitoras e leitores desse cantinho maravilhoso! Feliz Natal!

Carol

1:52 PM  
Anonymous Anônimo said...

Eu também admiro muito a Mô! E bem antes do Ignácio!
Mô, comecei a ler seu blog, agora já era!

Bjão Cá Saraiva

2:55 PM  

Postar um comentário

<< Home