quinta-feira, novembro 08, 2007

A água dos olhos não dorme

"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa, no açude,
no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos

E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.

O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem,
nessa hora de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono..."

Guimarães Rosa

1 Comments:

Anonymous Taís said...

Bah...sem comentários..minhas águas ficaram salgadas...todas..e quiseram, ao mesmo tempo, sair pelos olhos...LINDO!!!!
Saudade querida

9:58 PM  

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