terça-feira, maio 16, 2006

Pânico no galinheiro - muito bom!

DEMÉTRIO MAGNOLI
COLUNISTA DA FOLHA


O PCC deflagrou ontem a guerra da informação. Existiram, aqui e ali, disparos reais, mas sobretudo os bandidos dispararam aleatoriamente chamadas telefônicas ameaçadoras. BUUU! A cidade de São Paulo reagiu como um imenso galinheiro. Rumores correram soltos, desatando reações em cadeia. Sob o influxo do boato, comerciantes baixaram portas de aço, pais assustados correram às escolas para resgatar as crianças e empresas suspenderam o serviço. De um bairro a outro, a cidade apagou-se ao longo da tarde.

Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegóvina, não renunciou à vida, nem sob sítio e debaixo das rajadas de franco-atiradores. Os mercados de Bagdá funcionaram em meio aos estrondos das bombas e mísseis dos ataques norte-americanos. Londres não parou durante os bombardeios aéreos alemães, na Segunda Guerra Mundial. Mas São Paulo curvou-se à delinqüência comum. Vergonha!

A culpa é dos governantes? Sempre, em primeiro lugar, a culpa é deles. Atônitas, cercadas por numerosas assessorias inúteis, as autoridades estaduais e federais entregaram-se desde domingo ao jogo eleitoral, elaborando declarações maliciosas sobre seus adversários. Mas esses especialistas na baixa política não foram capazes de identificar o sentido da operação do PCC e, na prática, renunciaram a governar.

Na hora da primeira série de ataques coordenados, o governo do Estado de São Paulo tinha a obrigação de centralizar as forças policiais em um comando único de emergência. Em vez disso, talvez inspirado nas ações dos comandantes do Exército que, no Rio de Janeiro, firmaram um acordo fétido com o Comando Vermelho, ele preferiu iniciar negociações sigilosas com os chefes da delinqüência.

De nada servem um governador e um secretário da Segurança impotentes diante de uma guerra de rumores. Ontem, enquanto os cidadãos se acovardavam, os boletins de notícias desempenhavam involuntariamente o papel destinado a eles no planejamento dos bandidos. Mas não passou pela cabeça vazia das autoridades o recurso elementar de, usando a legislação disponível, colocar a TV e o rádio em rede oficial, por todo o tempo necessário, a fim de desfazer a boataria, chamar as pessoas à razão e impedir o cancelamento da vida normal.

A culpa é só dos governantes? Não, mil vezes não! São Paulo conheceu ontem os efeitos psicológicos da indústria do medo. A classe média que não deixa os seus filhos circularem de ônibus e metrô, que se cerca de câmeras e alarmes, que passeia apenas em shopping centers e aspira comprar um automóvel blindado correu na direção de seus bunkers domésticos murmurando tolices sobre a pena de morte. No começo da noite, um manto de silêncio desceu sobre a cidade. Vergonha!

1 Comments:

Blogger Carolina said...

Mô, tô lendo, sempre, mas as vezes falta tempo para comentar... ai, vida doida...

Gostei muito desse texto. Sabe, segunda, caminhando na USP indo para casa, fiquei pensando que era um acontecimento surreal, que, meu deus, não era possível que aquilo - não “os ataques do PCC”, mas a reação das pessoas, "da classe média" - estava acontecendo. E os dias que se seguiram, fui ficando cada vez mais triste com a miséria humana. Doía meus ouvidos as pessoas falando "esses marginais, pago para eles comerem melhor que nós e querem tv para a copa", "tem que morrer", etc. E a porcaria da globo, como o ridículo do William Boner agredindo o governador... foi chocante ver a diferença do jornalismo sério (a tv cultura também entrevistou o governador) e o sensacionalismo da maior e mais vista emissora do pais... estou triste, cada dia mais triste com esse show de horror, com o poder da mídia sobre a vida, os sentimentos, das pessoas. Será que esse mundo tem jeito?!
Bjos

2:31 PM  

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