sexta-feira, janeiro 09, 2009

Junie, Bia e as meninas de 16

Num raro momento online no MSN, reencontrei uma ex-aluna minha dos tempos da rádio, a Biazinha, uma menininha doce e muita esperta de 8 anos que hoje tem 16, ora veja se pode uma coisa dessas? E depois de conversar sobre vestibular, carreira e tal... veio a fatídica pergunta:
- E o coração?
- O coração?
Ela indagou.
- Anda jorrando sangue pra tudo quanto é lado.

Foi o que ela me respondeu de prontidão. Ah, adolescência! O quão dramático são seus dias. Como o amor é sofrido!

Eu, euzinha aqui, aos meus 16, era uma sofredora romântica, diga-se de passagem. Para aliviar a dor de amor que me acometia, tocava um andante bem extenso com as luzes apagadas do quarto e sem ler partitura. Bem rápido para assim a dor poder sair de alguma forma por meio daqueles dedos que dançavam sobre as cordas de nylon do meu velho violão companheiro. Essa era uma das formas de tentar amenizar aquele negócio meio indecifrável e grande que morava dentro de mim. Além desse escape, costumava escrever muito também. Eu e minhas amigas sofredoras, ainda sem o tão querido e companheiro e-mail, escrevíamos cartas a mão todos os dias e por mais que nos falássemos pessoalmente ao vivo e a cores na escola, a palavra escrita traduzia coisas, organizava o pensamento de tal maneira, que a oralidade era incapaz de fazer. O drama do amor de 16 anos combinava com a palavra escrita, tão poética, tão sofredora, coitada!

O filme francês "A Bela Junie", de Christophe Honoré, retrata bem esta angústia amorosa juvenil. O roteiro - uma adaptação livre do romance La Princesse de Clèves, de Madame de La Fayette, escrito no século XVII - mostra que por mais que os séculos andem, parte do retrato continua o mesmo. A protagonista, linda de doer os olhos, é uma jovem novata na escola que é alvo de paixões dos alunos e do professor de italiano. Uma cena em especial, com um jukebox, denota tanta poesia e cumplicidade num mundo contemporâneo recheado de visualidade, imediatismos e de "pegações".
Como bem disse uma amiga minha quando saímos da sessão na última segunda, "é uma malhação francesa". Tá certo que a Malhação é qualquer coisa. As meninas e os meninos fazem artimanhas maldosas e descabidas por conta de um amor. Até o golpe da barriga - tão antigo - ainda é um mote super presente na novelinha brasileira. Mas o ideal romântico tá lá presente, não tá?


Junie, assim como a Bia, como eu há anos atrás e como muitas garotas de 16 anos, busca no amor romântico a resposta da inquietação que nos move. E, em muitos momentos, mesmo que inconsciente, prefere mantê-lo num ideal platônico, para não haver a desilusão, o choque com a realidade que é tão efêmera, fugaz e pouco doída. Afinal, a dor de amor é muito inspiradora.

2 Comments:

Blogger Madalena said...

Querida! Me transportei no tempo com esse seu texto... até meus 16 anos, tão parecidos com os seus, e tão álvares-de-azevedianos... haha! Ao contrário da maioria da galera da minha idade, que já exercia com furor a atividade "fiquística" tão característica da idade. Enfim... muito boa reflexão! E esse seu último parágrafo me faz retornar à cabeça um pensamento meio recorrente nos últimos dias: o de que os amores vividos com maior plenitude, paradoxalmente, acabam sendo mesmo os idealizados. Pelo menos são os que duram mais tempo em seu estado puro, preservados do choque da realidade. O texto que postei no meu blog ontem, por exemplo, de 2 anos atrás... é um caso assim. Acho que, se tivesse tido oportunidade de concretizar a situação, talvez jamais pudesse pensar nela com a pureza e alegria com que penso até hoje, como uma recordação bonita num livro de histórias. Tem horas que a distância trabalha a nosso favor. :)
Beijos!

12:15 PM  
Blogger Rafael Cury said...

Eu acho que eu continuo adolescente...

6:57 AM  

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